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Sonhos interrompidos pela tradiçãoMaria, 16 anos de idade, “fintou” o sonho de ser advogada para cedo se instalar num lar. Forçada a casar-se com um homem de 30 anos, viveu um autêntico pesadelo, submetida a maus tratos. Não tardou que regressasse a casa com filho às costas, mãos a abanar e o fardo de ter de cuidar de uma criança, com precárias condições financeiras.

Maria é apenas um o espelho de muitas outras raparigas cujos sonhos são amputados por casamentos prematuros e gravidezes precoces. O cenário é dramático e os números assustadores. 48% das raparigas em Moçambique casa-se antes dos 18 anos e 12% antes de atingir 12 anos, segundo o relatório de análise estatística sobre casamentos prematuros e gravidez precoce elaborado pelo Fundo das Nações Unidas Para Infância(Unicef).

De resto, Moçambique está entre os países com maior taxa de casamentos prematuros e gravidezes precoces no mundo, situação esta que atenta contra os direitos das crianças, que, muitas vezes, são forçadas a abandonar a escola para se casar. Pressões e incentivos económicos, ritos de iniciação, religião, redução das despesas familiares, entre outros aspectos, ganham dimensão e contribuem para os casamentos prematuros e gravidezes precoces.

Com vista a inverter o cenário, a primeira-dama, Isaura Nyusi, lançou, sábado, em Cabo Delgado, a Estratégia Nacional de Combate a Casamentos Prematuros, um instrumento que foi aprovado, ano passado, pelo Conselho de Ministros.

A estratégia compreende acesso à educação, quadro político legal, saúde sexual e reprodutiva, comunicação e mobilização, empoderamento das crianças do sexo feminino, mitigação/resposta e recuperação, coordenação multissectorial e advocacia, acesso à educação de qualidade. A mesma está orçada em 2 640 192 556 meticais.“O objectivo principal é aumentar a consciencialização sobre o que deve ser feito para combater os casamentos prematuros, com enfoque nas gravidezes precoces e mortalidade infantil.

É preciso tornarmo-nos agentes da mudança perante este flagelo’’, frisou Isaura Nyusi, na abertura do Seminário Nacional de Prevenção e Combate dos Casamentos Prematuros e Gravidezes Precoces.

 

Umas das principais causas da mortalidade infantil, os casamentos prematuros vão contra os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável.

O Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), diz ser o momento de dizer basta à violação dos direitos humanos. “Os dados do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano mostram que a desistência da rapariga na escola se acentua a partir dos 12 anos. É necessário inverter esta situação, para que as raparigas possam alcançar o seu máximo potencial e os países possam atingir as suas metas de desenvolvimento social e económico’’, observou Edna Kozma, representante da Unicef.

O seminário reuniu membros do Conselho de Ministros, parlamentares, sociedade civil e parceiros do Gabinete da Primeira-Dama.

 

Gravidez precoce interrompeu sonho de Lúcia

“Eu queria ser professora”, disse Lúcia Serinate, jovem de 20 anos, residente em Ingonane, um dos bairros periféricos de Pemba. Este sonho, para já, foi interrompido. Há três anos, na altura com 17, teve complicações pós-parto. Luta, de há uns tempos a esta parte, para ultrapassar os problemas de locomoção que tem desde que deu parto, em Outubro de 2013, resultado de uma gravidez precoce.

A jovem conta que “sofri muito com as dores e chegava mesmo a sangrar”. As dificuldades em locomover-se e as condições financeiras precárias forçaram Lúcia a abandonar a escola. O sonho de se formar e um dia transmitir os seus conhecimentos aos mais novos foi interrompido.

O desespero tomou conta da família, que temia pela vida de Lúcia. Foram momentos de dor. Em Moçambique, aproximadamente 20% das mortes maternas ocorreram em raparigas e jovens com menos de 20 anos. Ciente deste drama que vivem as raparigas, Lúcia procura hoje sensibilizá-las a não optarem por casamentos prematuros.
In: O país

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